segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Amelie

A voz de Billie Holliday cantando Summertime tocava suavamente em um pequeno bar numa esquina de um bairro antigo na cidade do Recife, apesar da hora avançada existiam poucos clientes naquela noite quente que se mostraria inusitada. A luz amarelada que refletia dos moveis antigos e das pequenas luminárias que ficavam sobre as mesas, dava o tom do lugar. Ao fundo um longo balcão de madeira que tomava boa parte do interior do lugar parecia ser o local preferido das conversas além de garantir visão privilegiada de todo espaço.
Amelie chegou faltavam dez minutos para as 23 horas, o vestido preto que deixava as costas completamente nuas contrastava com os longos cabelos loiros que caiam pelo ombros. Trazia no rosto um olhar enigmático e um sorriso malicioso.
Pedimos vodka e gelo. Silenciamos por um instante, nos olhavamos como tentando saber o pensamento do outro. Mil pensamentos corriam nessa hora, éramos íntimos estranhos, mas não parecia haver dúvidas do que se fazer.
O doce sabor de frutas vermelhas da vodka foi sem dúvida a prévia de algo muito mais doce que provaria naquela noite.
Amelie sorria, e era um sorriso de menina, seu rosto ruborizava a cada olhar. Segurava o copo com as duas mãos, após o segundo gole, levantou seus olhos e disse: "- esperei muito pra te ver, não perderia esse momento por nada."
Como que num filme, a jukebox começou a tocar "i want to know what love is". Segurei sua mão por sobre a mesa, nos olhamos, minha boca então fria nesta hora pelo gelo da bebida foi tomada de um calor invasivo do beijo de Amelie.
O Plaza Hotel as margens do Rio Capeberibe, na bela e linda Rua da Aurora, tornou-se nessa noite o centro do mundo. A grande Lua cheia tomava conta e reinava na noite iluminou nosso caminho até o plaza. Apenas as estátuas da ponte Maurício de Nassau foram testemunhas dos desejos de Amelie. Nas estruturas de aço que se inclinam pra dentro do rio foram o local do tardio amor, nesta hora até Minerva (umas das estatuas) corou.
Quantos Kilometros são necessários pra se medir uma paixão? Que impacto de fato causa a distancia na vida de duas pessoas? Com certeza não menos que o impacto da vontade e do desejo do "querer".




domingo, 6 de setembro de 2009

Sabrina

11 da noite, a campainha do apartamento tocava insistentemente, rompendo o silêncio absoluto que se fazia naquele fim de inverno. Estava escuro e o luar que entrava pela janela da sala indicava o caminho até a porta. Pelo olho mágico percebi a silhueta de uma mulher. Abri a porta e foi com surpresa que pude ver quem estava parada a minha frente. Seu cabelo dourado tocava os ombros, vestia uma calça jeans desbotada e uma blusa azul que deixava as costas completamente nuas. - Não diga nada, disse Sabrina. Seus olhos amendoados e sua voz firme me deixaram imóvel, ela segurou minha mão e antes que esboçasse qualquer reação me beijou. Atônito e sem acreditar no que estava acontecendo imaginei que seria um sonho, mas o perfume levemente doce e a pequena mordida nos meus lábios me convenceram do contrário. E foi com um sorriso no canto da boca que ela me perguntou:

- Não me convida para entrar?
- Claro, claro. Respondi.
- Senti muito sua falta. disse ela.
- Você sumiu. Respondi acendendo o pequeno abajur no canto da sala.
- Estive em Montevidéu ajudando meus pais, achei que não voltaria mais ao Brasil.
- E quando você voltou? perguntei.
- Cheguei há dez dias e me contaram que você ainda estava aqui, morando num apartamento na zona sul da cidade. Não quis perder mais tempo. Disse acendendo um cigarro ao mesmo tempo em que segurava a franja loira na altura do queixo.

A conversa com Sabrina durou o tempo de meia garrafa de vinho merlot que descansava fria no fundo da geladeira. Enquanto All of me tocava no antigo receiver e relembravamos o passado na nossa juventude, deitamos no rastro da lua, no meio da sala, alí passamos o resto da noite. Ela apoiou seu rosto por sobre o meu peito e suas pernas por sobre as minhas, não éramos estranhos, fomos cúmplices do nosso destino a vida inteira mas nunca nos demos conta disso. - Não vou te deixar mais, falou Sabrina acariciando meu peito. A Meia-noite em ponto o relógio parou, nesta hora nos tornamos um, o mundo também parou um pouco nesse momento e somente as sombras se moviam lentamente. A madrugada terminou molhada pela chuva e pelo prazer.

- Estou com sono. Ela disse.

Deitou sobre mim e dormiu docemente, o alvorecer azulado trouxe também meu descanso e de novo a vontade de sonhar.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Manhã de Inverno

Manhã fria, naquele alvorecer de inverno o vento frio entrava pela varanda trazendo consigo o barulho calmo das ondas e o cheiro do mar. Ainda não havia sol e o céu cinzento era um prenúncio do dia que estaria por vir. A casa ficava em uma praia ao sul de Alagoas, estava vazia e o silêncio era pleno,interrompido somente pelo barulho dos coqueiros acariciados pelo vento e pelas aves pescadoras, naquela manhã senti como se tudo já me bastasse, não precisa de mais nada, a não ser dos meus sentidos. Como de costume os gatos, habitantes daquele lugar, se fizeram presentes dormindo aos pés dos lençóis, na cama larga, coberta pelo endredon branco dormia uma mulher branca de cabelos revoltosos, tinha no corpo toda a doçura e todo cheiro das flores que teimam em acordar nos dias de Agosto. Dela resplandecia o sol que se escondia por trás da nuvens, tê-la em meus braços, sentindo sua pele nua era como ter a certeza do firmamento, a vida despida de todos os fetiches encontrava um sentido pela sua existência. Naquela manhã tudo que realmente importava estava ali, naquele quarto, a brisa leve, o som do mar, os gatos e a linda mulher que sonhava amar.

domingo, 26 de julho de 2009

À Meia Luz

Havia apagado meu blog anterior por vários motivos, no fundo porque na verdade nunca gostei dele, desde o endereço que eu tinha criado há um ano atrás e nunca o tinha de fato o utilizado. E depois das ultimas experiências que passei pra mim ele me ocorreu como uma fuga. Depois de ter escrito o primeiro dos dois únicos textos, não o publiquei por um tempo, achei que era uma exposição enorme, porque no fundo estava falando de mim para mim mesmo. O segundo texto era um delírio total, e foi junto com ele que resolvi acabar com tudo. Conversando com uma amiga minha (Rosaly é você), ela me encorajou a re-criar o blog. No meio disso tudo estava relembrando algumas músicas que gosto muito e daí reencontrei um álbum da Marina Lima chamado Registros a Meia Voz, do qual eu tinha o CD e se perdeu nas dezenas de mudanças que fiz e lugares diferentes que morei. Pra finalizar sempre gostei dos ambientes escuros, da pouca ou nenhuma luz, das luminárias de mesa. Então é juntando tudo isso que me inspirei no que é agora o Registros a Meia Luz. Pra início de conversa republico o primeiro texto do blog anterior, minhas postagens serão na medida do possível sempre acompanhadas de algum video, musica ou podcast. Nesta deixo o videoclip da primeira música deste álbum da Marina Lima, chamada À Meia Voz.

Vale a pena se apaixonar?

"Nunca mais teremos alegrias sem dor"; "Não se pode querer que o amor traga só felicidade"; "O único sofrimento de amor é não ser correspondido" . Tirei essas frases de um filme que assisti recentemente, e acredito que se aplicam aos que talvez agora estejam passando por algum momento de crise amorosa. Mas se é verdade que se apaixonar nos leva inevitavelmente a sofrer, passar horas com aquela pessoa na mente e não importa o que você faça ela não sai da sua cabeça, o sentimento da dúvida da paixão correspondida, as horas de angústia pelo celular que não toca, da mensagem que não chega, das palavras de carinho que você não ouve. Vale a pena sofrer por amor?? Vale a pena se apaixonar, já que na maioria das vezes isso só reflete decepção e dor?
"Paixão" é sofrimento até no significado, e quando chegamos na conclusão de aceitar que alguém não gosta da gente porém não conseguimos deixa de gostar desse alguém, a dor é certa.
A noite é breve e quando chega a aurora, de lágrimas nos olhos por conta da hora da partida é que mesmo assim percebemos o quanto fomos felizes nas horas de amor e prazer. Apesar da "ressaca" de agora é impossivel se arrepender pois a vontade é de repetir tudo, como no começo, como no primeiro olhar, no primeiro beijo que fez as mãos suarem e o coração pular.
Apaixonar-se é acima de tudo viver, e viver é ter alegria....e dor, e não conheço ninguém que queira deixar de viver. Hoje, olhando para trás, posso dizer qua valeu cada minuto, cada suspiro e respiração ofegante de cada paixão. Abrir mão de sofrer, abrir mão de apaixonar-se logo é abrir mão de viver. Então amigo, amiga, viva, sofra, ame, e de coração aberto, mas não esqueça de cuidar do seu jardim, as borboletas sempre voltam, é importante dizer isso por que a hora da dor queremos sair do mundo e esqueçemos de nós mesmos.
Outras noites virão, por isso agora, enxugue as lágrimas, abra a porta, a janela, encha os pulmões com a brisa, deixe o sol bater um pouco no rosto, coloque pra tocar uma canção, você não está sozinho. Mas se quer saber se existe uma saída? A saída é não desisitir de procurar uma saída.